Avaliação de produtos nitrogenados: concentração de Nitrogênio amoniacal no líquido ruminal

                    

Prof. Dr. Luís Carlos Vinhas Ítavo[1]

 RESULTADOS PRELIMINARES

Houve efeito de produtos para as concentrações de N-amoniacal no líquido ruminal de bovinos (Tabela 1). Observam-se picos de liberação de nitrogênio inferiores para os produtos extrusados: amiréia-200 (A200) e amiréia-180 (A180), com máximos por volta de 5 horas de incubação, mas com liberação praticamente constante (Figura 1).

As misturas M200 e M180, as quais são compostas por milho, uréia e enxofre, como as amiréias (A200 e A180), sem passar pelo processo de extrusão, apresentaram valores superiores aos das amiréia de N-amoniacal no líquido ruminal. Tal fato sugere que o processo de extrusão, causou uma proteção à liberação do Nitrogênio no líquido ruminal.

Diversos tratamentos químicos e físicos, tais como extrusão, são utilizados no processamento de rações, com o objetivo de incrementar a eficiência de sua utilização, aproveitando melhor o potencial do animal. A extrusão é um processo de cozimento à alta pressão, umidade e temperatura, em curto espaço de tempo. Estes fatores distinguem a extrusão de outros tratamentos utilizados no processamento de dietas (O’CONNOR, 1987) e/ou produtos.

As barreiras físicas para a digestão do amido incluem a cutícula da semente, a matriz protéica que envolve os grânulos de amido e a baixa solubilidade do amido, por si só. A utilização mais completa do amido requer um maior grau de rompimento do grânulo de amido, que pode ser obtido através do processamento à vapor apropriado. Os tratamentos que envolvem umidade, calor e pressão causam o rompimento da matriz proteica que recobre e encapsula o grânulo de amido do milho e aumentam a sua eficiência de utilização (OWENS, 1986).

Segundo THOMAS et al. (1998), o principal fator que contribui para mudanças do amido é o vapor. Aumentando-se a pressão de vapor, aumenta-se o grau de gelatinização do amido e, com tempo maior de permanência da mistura no canhão, ocasiona-se melhor absorção da umidade e aumento no tamanho da partícula do amido, devido à dilatação pela hidratação. Esses eventos unidos a mistura com uréia, na confecção da amiréia, podem ter sido responsáveis pela redução e manutenção constante da solubilidade e conseqüente liberação de nitrogênio no líquido ruminal.

 

Tabela 1 – Médias da concentração de Nitrogênio amoniacal (mg/dL) no líquido ruminal, em função do produto nitrogenado e tempo de incubação in vitro à 39ºC

Tempo

(horas)

Produto Nitrogenado

Optgen

Amiréia

180

Mistura

180

Amiréia

200

Mistura

200

0

2,89

1,93

3,61

1,03

2,00

1

16,82

13,68

12,93

13,79

14,04

2

19,96

11,75

16,00

15,32

15,57

3

17,43

12,46

12,71

11,46

14,14

4

16,75

12,04

14,46

13,11

17,32

5

15,36

15,21

19,18

18,14

20,54

6

17,64

14,68

17,32

15,32

16,32

7

16,89

15,04

13,64

16,61

17,14

8

14,89

12,82

15,38

14,99

16,87

9

13,17

10,59

12,02

13,55

13,85

10

10,53

11,78

16,06

11,12

17,37

11

14,49

9,80

14,49

16,89

16,65

12

15,68

12,17

13,05

15,26

14,53

Médias seguidas por letras maiúsculas na mesma linha diferem entre si pelo teste Tukey (P<0,05)

YOPT = 0,0591x3 - 1,3791x2 + 9,165x (R2 = 0,68)

YM200 = 0,0317x3 - 0,8594x2 + 7,0197x (R2 = 0,76)

YA200 = 0,0343x3 - 0,8556x2 + 6,5397x (R2 = 0,63)

YM180 = 0,0338x3 - 0,883x2 + 6,8648x (R2 = 0,67)

YA180 = 0,0298x3 - 0,7868x2 + 6,0678x (R2 = 0,67)


Observa-se na Figura 2, que os produtos extrusados A180 e A200 apresentaram os menores picos de liberação de N-amoniacal no líquido, seguidos pelas misturas não extrusadas (M180 e M200). Tal fato pode ter ocorrido devido a sincronização de degradação do amido com a solubilização do Nitrogênio, permitindo que os microrganismo presentes no líquido ruminal utilizassem tanto o Carbono proveniente do amido do milho, como o nitrogênio proveniente da uréia, para a síntese microbiana.

Tal fato não correu com o Optigen, provavelmente devido a ausência de compostos, fontes de carbono para sincronização e conseqüente, síntese microbiana. Observam que as médias de N-amoniacal apresentadas pelos produtos extrusados permaneceram entre 12 e 16 mg/dL, enquanto que os demais produtos testados ultrapassaram 16 mg/dL.

ÍTAVO (2001) estimaram concentrações máximas de N amoniacal em 22,93 mg de N/dL de líquido ruminal com 14,14% de concentrado e 1,89 horas após o fornecimento da dieta. Segundo os autores, os valores encontrados para as máximas concentrações de N-amoniacal das dietas, em função do tempo de coleta (até 12 horas após alimentação), estão de acordo com MEHREZ et al. (1977), os quais sugeriram que a máxima atividade fermentativa ocorreria quando as concentrações de N amoniacal estiverem entre 19 e 23 mg de N/100 mL de líquido ruminal.

O catabolismo de proteínas produz amônia no rúmen, e tal fato pode ser de interesse especial, pois pode ter a função de economizar proteína através da reciclagem tão bem como ocasionar problemas pelo excesso. A amônia é exigida por muitos microrganismos ruminais que fermentam carboidratos, alguns dos quais também requerem e/ou são estimulados por aminoácidos, peptídeos e isoácidos derivados de valina, leucina e isoleucina. Dessa forma, é necessário que alguma proteína seja degradada no rúmen para suprir as necessidades de peptídeos e/ou aminoácidos no rúmen. A disponibilidade de carboidratos estimula o uso de amônia na síntese de aminoácidos e no crescimento microbiano (VAN SOEST, 1994).

SATTER e SLYTER (1974) estabeleceram que 5 mg N/dL de fluido ruminal seriam o mínimo para a ocorrência de máxima fermentação microbiana ruminal. A redução na concentração de N amoniacal, com o aumento do nível de concentrado, pode ser justificada pelo aumento na disponibilidade de energia ruminal, que possibilita maior utilização da amônia para o crescimento microbiano (CARVALHO et al., 1997).

Porém, MEHREZ et al. (1977) afirmaram que o máximo de atividade fermentativa ruminal é obtido, quando o N amoniacal alcança valores entre 19 e 23 mg N/dL de líquido ruminal. Já VAN SOEST (1994) citou que o nível ótimo é 10 mg/100 mL, todavia isto não pode ser considerado como um número fixo, devido à capacidade das bactérias para a síntese de proteína e captação de amônia depender da taxa de fermentação dos carboidratos. Assim, os produtos extrusados seriam os mais próximos aos valores considerados ótimos, entre 10 e 16 mg/dL.

CARVALHO et al. (1997) comentaram que a redução na concentração de amônia ruminal ocorre com o aumento no nível de concentrado (rico em amido) e pode ser justificada pelo aumento na disponibilidade de energia ruminal, que possibilita maior utilização da amônia para o crescimento microbiano. Segundo o NRC (1996) sugere que a proteína microbiana pode suprir até 100% da exigência de proteína metabolizável para bovinos de corte. Os resultados sugerem que os produtos extrusados tenham contribuído para o melhor aproveitamento do Nitrogênio disponível para os microrganismos.

VAN SOEST (1994) relatou que o suprimento de N no rúmen promove o crescimento microbiano até o limite das exigências dos microorganismos, todavia, essa exigência estaria relacionada aos carboidratos fermentescíveis disponíveis, à produção de ATP e à eficiência de conversão em células microbianas. Esses relatos sugerem que a presença de amido nos produtos extrusados (A200 e A180) e não extrusados (M200 e M180) atenderam as necessidades microbianas em N e em ATP.



 

 


 

Figura 1 – Comportamento das concentrações de Nitrogênio amoniacal (mg/dL) no líquido ruminal, em função do produto nitrogenado e do tempo de incubação in vitro à 39ºC


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

CARVALHO, A.U., VALADARES FILHO, S.C., COELHO DA SILVA, J.F. et al. 1997. Níveis de concentrado em dietas de zebuínos. 4. Concentrações ruminais de amônia e pH, taxa de passagem da digesta ruminal e degradação in situ dos alimentos. Rev. Bras. Zootec., 26(5):1016-1024.

ÍTAVO, L.C.V. Consumo, digestibilidade e eficiência microbiana de novilhos alimentados com dietas contendo vários níveis de concentrado, utilizando diferentes indicadores e períodos de coleta. Viçosa, MG, 2001. Tese (Doutorado em Zootecnia). Universidade Federal de Viçosa, 2001.

MEHREZ, A.Z., ÆRSKOV, E.R., McDONALD, I. 1977. Rates of rumen fermentation in relation to ammonia concentration. Br. J. Nutr., 38(3):437-443.

O’CONNOR, C. Product development services available from extruder manufactures. In: __. Extrusion technology for the food industry. New York :Elsevier Applied Science, 1987. p.71-5.

OWENS, F. N. Limits starch digestion in the ruminant small intestine. J. Anim. Sci., v.63, n.1, 1634-48, 1986.

SATTER, L.D., SLYTER, L.L. 1974. Effect of ammonia concentration on rumen microbial protein production in vitro. Br. J. Nutr., 32(2):199-208.

THOMAS, M.; VAN DER POEL, A. F. B. Physical quality of pellet animal feed.1.Criteria for pellet quality. In: __. Physical quality of pellet animal feed: a feed model study. Wageningen: Wageningen Agricultural University, 1998. p.19-46.

VAN SOEST, P.J. 1994. Nutritional ecology of the ruminant. Ithaca: Comstock Publ. Assoc. 476p.



[1] Zootecnista, D.Sc. Professor da Universidade Católica Dom Bosco – UCDB. Campo Grande-MS.

 itavo@ucdb.br

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